Negócios

O que minha filha de um ano e meio me ensinou sobre negociação.

Ela não aceita “não” como resposta final — e isso, no fim das contas, é a melhor aula de negociação que já tive.

Semana passada, minha filha de 1 ano e meio passou 20 minutos tentando me convencer de que biscoito é café da manhã. Ela não fala frase completa ainda. Não importa. A querida não precisa de vocabulário pra ter uma tese.

Primeiro veio a lógica, no melhor português de bebê: apontou pro biscoito, apontou pra boca, me olhou como quem diz “conecta os pontos, mãe”. Quando isso não funcionou, ela partiu pro golpe baixo, começou a abraçar e beijar, “I love you mamãe” na clara esperança de que eu aceitaria o argumento. Não aceitei. Foi quando ela puxou a artilharia pesada: aquele beicinho tremendo, olho marejado, a performance mais convincente que Hollywood já viu. E quando nem isso funcionou? Ela desistiu. Foi brincar. Voltou vinte minutos depois com o mesmo biscoito na mão, como se fosse a primeira vez que a gente tocava no assunto.

Zero rancor. Zero memória do “não” anterior. Só uma nova reunião marcada, com a mesma pauta.

Eu, adulta, com LinkedIn e tudo, fiquei ali pensando: quantas vezes eu ouço um “não” e simplesmente vou embora de cabeça baixa, enquanto uma pessoa de 1 ano e meio, sem terminar uma frase, já entendeu que negociação é jogo de várias rodadas?

“Não” não é a última palavra da reunião

A maioria de nós escuta um “não” — de cliente, de chefe, da família — e já fecha o laptop, encolhe e some. Minha filha me lembrou (usando um sorriso maroto como moeda de troca) que “não” geralmente é só a resposta da primeira tentativa, não o veredito final do universo.

Testar diferentes abordagens é estratégia!

Lógica, suborno, drama, retirada estratégica. Ela não ficou repetindo a mesma cara emburrada esperando eu mudar de ideia sozinha — foi trocando de tática até achar a que fazia sentido. No trabalho, muita gente manda o mesmo e-mail educado três vezes e chama isso de “insistência”. Ela chamaria isso de falta de criatividade.

Voltar sem drama é a jogada mais avançada de todas.

A parte que mais me quebrou foi ela voltar depois, leve, sem carregar o “não” de antes como uma ofensa pessoal. Eu, enquanto isso, ainda fico remoendo um “não” de 2019. Ela simplesmente recalculou a rota e tentou num momento melhor — sem ego, sem drama, sem post-mortem emocional.

No fim, ela ganhou meio biscoito antes do almoço. Não porque eu cansei. Porque, cá entre nós, a apresentação de TCC com rodadas de negociação foram argumentos sólidos.

Às vezes a melhor mentora de negociação da minha vida ainda usa fralda.

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